Um pouco da história da escrita colaborativa

23 03 2008

Autoria Coletiva

Como tinha comentado quando começamos a escrever a memistóriaPerseguindo Nisus“, a escrita colaborativa de ficções não é nada nova. Nem tampouco se inicia no suporte digital.

No mercado editorial brasileiro, por exemplo, o livro “Pega pra Kapput”, publicado em 1978, foi escrito coletivamente pelos escritores Josué Guimarães, Moacyr Scliar, Luiz Fernando Verissimo e pelo desenhist Edgar Vasques. Segundo Guimarães, “Cada um escreveu um capítulo. O manuscrito era remetido, por pombo-correio, a um companheiro (companheiro! Imagina se fossem inimigos!) para que o continuasse”. Pega pra KapputAlém de textos, o livro coletivo trazia algumas páginas no formato de histórias em quadrinhos, desenhadas por Vasques. Não havia um roteiro prévio e cada colaborador tinha total liberdade em continuar a história.

Páginas do Pega pra Kapput

Em sua tese de doutorado sobre escrita hipertextual, Raquel Longhi cita diversos antecedentes da escrita colaborativa. Uma das raízes mais lembradas é o processo literário dos surrealistas chamado de “cadáver estranho”, através do qual uma poesia, por exemplo, é criada através da escrita de versos por participantes que só podiam ver o trecho imediatamente anterior ao seu. No meio digital, Raquel destaca o trabalho pioneiro de Roy Ascott: “La plissure du texte“, de 1983. Este projeto foi construído por 14 autores, durante 3 semanas, dia e noite. Já no contexto educacional, um marco importante no uso da tecnologia digital para a criação de histórias colaborativas é o projeto Dickens Web, coordenado pelo professor George Landow (autor do referencial livro “Hypertext”). No Brasil, o projeto “A Lady e o Arminho” foi criado pelos alunos de um dos primeiros cursos sobre hipertextualidade no país, ministrado online por Marcos Palacios.

Muitos estudos e experiências também foram realizados com o uso de ficções em hipertexto digital no doutorado em Informática na Educação da UFRGS. A professora Margarete Axt conduziu uma dessas primeiras experiências, na qual 8 colaboradores criaram a história coletiva “Era uma vez…”. Em um artigo que reflete sobre a experiência, Axt et al (2001) comentam:

A cada novo acesso que se faz à narrativa, a sensação que se tem é de encontro com uma outra história: parágrafos inteiros foram colocados entre os que já haviam sido escritos agenciando novas conexões e dispersões; personagens aparecem e morrem, enquanto outros parecem ter ficado distantes; tempos e lugares se modificam rapidamente; perguntas que interrogam, reticências que convocam, descrições que surpreendem, acontecimentos que decepcionam. Tudo conduz a uma sensação indescritível de desorganização. É como se a história tivesse seguido seus próprios rumos, como se os personagens houvessem modificado, por sua própria vontade, toda a trama enquanto os autores dormiam.

Jodo Autoria

Este brevíssimo histórico do processo de criação colaborativa de histórias não pode deixar de mencionar o jogo “Autoria: o jogo de criar histórias”, criado pela escritora Sonia Rodrigues (filha de Nelson Rodrigues). O jogo funciona como um guia de estrutura narrativa, através de cartas e um tabuleiro.

Minha primeira experiência com ficções colaborativas foi em meu antigo site Espiral Interativa, há cerca de 10 anos. Na seção “Obra em obras” eu propunha algo muito parecido com a memistória. Na época, 2 histórias começaram a ser escritas (mas nunca foram terminadas): Uma viagem cibernética e Lágrimas de Anjo.

E você, conhece outras experiências pioneiras e interessantes nessa área? Em um post anterior, Suzana Gutierrez comentou seu projeto educacional Wikistórias. Vale a pena conhecer!

Bem, pretendo continuar esse assunto em um post futuro.




Memistória: Perseguindo Nisus - episódio 1

10 03 2008

Logo memistóriaNisus mal podia acreditar no que estava vendo no monitor. Suando frio, faz logout de sua conta e sai correndo da lan house. O estagiário tenta sem sucesso alcançar Nisus: “Ei, moço, o senhor não pagou”. Ao parar no meio da rua, e antes de conseguir xingar aquele estranho cliente, percebe que do outro quarteirão surge um homem de casaco amarelo que também corre na mesma direção.

Percebendo que está sendo perseguido, Nisus pula o muro de uma escola, atravessa o pátio onde os estudantes aproveitam o recreio e finalmente alcança a rua paralela. Mesmo cansado, consegue tomar o ônibus que acabara de passar por ali.

Pouco depois de pagar o cobrador, avista o homem de casaco amarelo, vindo da porta oposta, atravessando o corredor do ônibus em sua direção.

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A continuação desta memistória poderá ser encontrada no blog ius communicatio, de Gabriela Zago. Para saber mais sobre o que é memistória e como participar, veja estas instruções.




O que é memistória e como participar?

10 03 2008

Logo MemistóriaChamarei de memistória um processo de escrita coletiva em que uma ficção é escrita colaborativamente entre blogs. Cada participante escreve um post com uma pequena parte da história. Após escrever um trecho, o blogueiro indica em qual blog (ou em quais blogs, no caso de bifurcação da história) a ficção continua. Além de uma prazerosa e criativa atividade, ganha-se uma oportunidade de conhecer diferentes blogs.

Veja a seguir um passo a passo de como criar e participar em memistórias:

  • o primeiro blogueiro escreve a introdução da história e cria um título indicando o número do episódio (ex.: Memistória: Exemplo de título - episódio 1);
  • logo após, escolhe um amigo que possua blog e lhe escreve informando que ele foi selecionado para continuar a trama;
  • o primeiro, termina seu post indicando o link (e posteriormente o permalink) do blog onde a continuação da história pode ser encontrada;
  • o blogueiro seguinte deve fazer o mesmo: entrar em contato com um novo participante e indicar o local do novo episódio da história;
  • os leitores podem incluir comentários pedindo para ser incluídos na história. Por outro lado, se alguém imaginou outro desenrolar para a trama, pode avisar na interface de comentários que bifurcou a história e escreveu uma continuação alternativa em seu próprio blog (devendo informar, claro, o permalink de seu texto). Nestes casos, o autor do trecho que foi bifurcado deve incluir referência aos caminhos alternativos ao final de seu post;
  • ao final de cada texto escrito, é importante incluir um link para o primeiro episódio, para que os novos leitores possam acompanhar a história desde seu princípio.

Você já deve ter participado da criação de outras histórias colaborativas (talvez até em uma mesa de bar, onde cada pessoa escrevia uma frase em um guardanapo). Se esse for o caso, já deve saber quão divertida é essa prática e como a história pode ganhar encaminhamentos surpreendentes em cada rodada. E nada melhor usar que blogs para este processo de escrita coletiva de hipertextos (leia mais sobre o tema aqui).

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Blogs vêm sendo usados para ficções seriadas. Como sabemos, estas interfaces se prestam muito bem para uma variedade de gêneros textuais, não apenas para a escrita de textos auto-reflexivos. Pela rapidez com que os posts são escritos e interligados uns aos outros, o uso de blogs/programa facilita sobremaneira a produção de ficções hipertextuais colaborativas; principalmente do que chamo de escrita coletiva de hipertextos colagem.

O neologismo memistória (meme+história) busca fazer referência à atividade lúdica de disseminação de conteúdos em blogs, as chamadas “memes”. Ou seja, uso o termo no que se refere a esse “jogo” da blogosfera, já que discordo da teorização sobre o conceito de Dawkins, impregnado de um determinismo biológico que naturaliza os processos sociais.