Ética na criação de mailing lists e vírus social

31 03 2008

SpamTendo em vista um incidente que ocorreu neste fim-de-semana na lista de discussão da Compós, quero aqui discutir alguns procedimentos éticos no desenvolvimento de mailing lists.

Neste domingo, um relações públicas envia uma mensagem para a lista (também traduzida para o inglês!) com a seguinte informação:

É um prazer contar com seu endereço eletrônico em meu cadastro para envio de informações sobre eventos culturais, entre outros.

Respeitando a política anti-spam, solicito que responda a este e-mail caso deseje ser removido deste mailing com a palavra REMOVER no campo assunto.

Logo em seguida, diversas mensagens aparecem na lista com o título “REMOVER”. Outros tantos e-mails são enviados em protesto à prática daquele RP. Mesmo que o autor da mensagem inicial tenha voltado à lista para pedir desculpas pelo “transtorno”, a enxurrada de mensagens ainda prossegue.

Há muito tempo se discute, principalmente na Europa, quais seriam as boas práticas para a criação e assinatura de newsletters. Existem dois procedimentos básicos para a sua criação (veja os sub-tipos aqui):

  • Opt-in: o internauta deliberadamente solicita a assinatura de uma newsletter. No caso do uso de um site para esse fim, a caixa para a seleção dessa opção deve vir desmarcada. Tal prática em sites que exigem algum tipo de cadastro garante ao internauta o direito de não assinar um serviço de forma desavisada;
  • Opt-out: os internautas são incluídos na lista de distribuição por uma empresa ou profissional interessado em divulgar suas informações. As pessoas que não tem interesse naquelas newsletters precisam entrar em contato para pedir a remoção de seus endereços eletrônicos. No que toca o preenchimento de cadastros em sites, o método opt-out já apresenta a caixa de assinatura marcada. O internauta precisa desmarcar essa opção se não deseja passar a receber a newsletter ou propagandas de “parceiros”.

Do ponto de vista de quem produz as newsletters, todas as pessoas que ele incluiu no mailing list devem ter interesse em suas informações. Por outro lado, ele dirá que as pessoas insatisfeitas com o serviço têm o direito de solicitar o cancelamento da assinatura. Mas, pergunto, quem lhe deu o direito de cadastrar os endereços eletrônicos de todas aquelas pessoas, para quem ele passa a “empurrar” todo o tipo de informações? Nesse sentido, mesmo que o produtor da newsletter possa insistir que têm uma política anti-spam, o envio não solicitado de uma newsletter, mesmo que apenas em uma oportunidade, já se configura como prática de spam.

V�rusAlém de não ter seguido os procedimentos éticos da criação de uma newsletter (mesmo que se diga que aquele RP tenha incluído o endereço da lista da Compós de maneira inadvertida), ele desencadeou um processo que muitos chamam de “vírus social”.

Todos sabemos que um vírus de computador é um pequeno programa que prejudica o desempenho da máquina. Por outro lado, a prática do envio de e-mails seqüenciais acaba causando um problema equivalente. Ter de apagar sucessivos repasses de correntes, rumores e pedidos demandam tempo e fazem uso desnecessário da conexão à Internet. Ou seja, o vírus social se refere a uma prática que onera a rede e não um software maligno.

É justamente isso que vem agora acontecendo na lista da Compós. O envio de pedidos de remoção do endereço de e-mail solicitado pelo e-mail do RP exige que todos os outros assinantes recebam a mesma mensagem. Ou seja, sua prática spammer não apenas incluiu o endereço da lista de discussão da Compós (utilizando o modelo opt-out) como gerou um efeito de “vírus social”.




A formiga, a cigarra e o filósofo homossexual

21 11 2007

A cigarra e a formiga

Era uma vez uma formiguinha chamada Selma. Quando o tempo esquentava, ela trabalhava, trabalhava, trabalhava. Em fila com suas colegas, carregava pesadíssimas folhas para dentro do formigueiro. Essas eram as reservas que garantiriam a vida no inverno.

Enquanto isso, a cigarra, de nome Pedro, cantava no tronco de um eucalipto. Sua voz tão bela atraía o interesse de todas as cigarras moças. Mas de tanto cantar, deixou todo o trabalho de lado. Morreu seco, queimado pelo sol.

Moças definitivamente não chamavam a atenção de outro personagem de nossa história. Este filósofo francês cedo percebeu que gostava de rapazes. Depois de escutar por diversas vezes que tal comportamento não era “natural” e que Deus não havia criado o homem para esse tipo de coisa, decidiu estudar isso tudo na academia.

Selma nunca pensou em contestar nada. Desde que nasceu, sabia exatamente qual era o seu lugar na sociedade. Herdeira dos compromissos da casta, trabalhava, trabalhava, trabalhava. Apesar de tanta dedicação, suas parentes, da geração seguinte, nunca ouviram falar dela.

Pedro também se foi. Mas não fez falta. Tantos outros machos cantaram no eucalipto. E encataram as meninas cigarras da época. E quantas delas deram a luz a outros cantores magníficos…que também não faziam a mínima idéia de quem teria sido Pedro.

O filósofo homossexual nunca deu muita bola para o barulho das cigarras. O que lhe preocupava de fato era como sua forma de amar era interpretada de formas diferentes em épocas distintas. Ele queria compreender como uma prática social compartilhada pelos homens da Grécia antiga havia sido mais tarde registrada nos manuais de medicina como uma doença, um comportamento que rompia com o funcionamento “normal” do corpo e da sociedade.

Selma, pelo contrário, sempre respeitou a ordem das coisas. Nunca revoltou-se com o trabalho pesado, muito menos com a hierarquia no formigueiro. As jovens cigarras também eram muito respeitosas com Pedro. Reconheciam nele a autoridade e a força, própria de todo bom cantor.

Poder, para o filósofo homossexual, nunca foi algo herdado, nem uma concessão ao soberano. Trata-se de uma relação de forças, que repercurte não apenas na relação entre os corpos, mas no próprio saber.

Ei, mas o que essas histórias têm em comum? Humm…de fato nada! Mas tem gente que acha que é tudo a mesma coisa!

Update: não deixe de ler o post anterior para compreender o contexto desta “pseudo-fábula”.




Não, a comunicação não é viral

19 11 2007

Dois temas que andam hoje muito populares: marketing viral e memes. Contudo, preocupa-me o fato de que tanto um quanto o outro partem de uma visão que aborda a comunicação como mero processo transmissionista. Lava-se tudo o que se sabe sobre subjetividade, discurso, implicações sócio-políticas, condicionamentos dos dispositivos materiais, etc. Por outro lado, o hype em torno das pesquisas sobre aquelas temáticas têm conferido sobrevida à perspectiva de difusão de inovações, muito popular nos anos 60-70, mas que perdeu força em virtude de seu viés funcionalista.

Meme e v�rus conversando

A ressurreição de tal aboradagem alimentou-se da chamada “nova” ciência das redes e das discussões sobre emergência. Barabási, expoente do primeiro grupo, lidera aqueles que não se cansam em comparar processos sociais à disseminação de epidemias. O jornalista Steven Johnson, por sua vez, prefere comparar o comportamento social humano à formação e manutenção de formigueiros e colméias. (Em tempo: utilizo muito esses autores, mas discordo das analogias que utilizam).

Apesar da sedução dessas metáforas, tão didáticas e bonitinhas (!), não podemos esquecer que a transmissão viral é um processo aditivo. Uma pessoa infectada transmite o vírus, que passa para outra, que repassa para um terceiro e assim por diante. Qualquer criança que já brincou de telefone sem fio sabe que a comunicação interpessoal não funciona dessa forma. Mesmo assim, no imaginário da cibercultura, como nos lembra meu amigo Erick Felinto, tudo é traduzido em termos informacionais.

No último congresso da IAMCR, realizado em Paris (ah, Paris!), a pesquisadora Virginia Nightingale fez uma dura crítica ao determinismo biológico que tanto aparece em periódicos, livros e congressos sem encontrar uma maior análise crítica. Ironicamente, ela comenta que a própria idéia de teia (web) nos coloca no mundo dos insetos antes que nos demos conta!

Virginia afirma que a simples inteligência dos insetos é um dos modelos preferidos em pesquisas de inteligência artificial. Contudo, essas explicações biológicas, reduzem a agência humana às respostas intuitivas dos “insetos sociais”. Para ela, o perigo de tais analogias, que naturalizam as relações sociais e descrevem a cibercultura como sendo determinada biologicamente, reside no fato que elas ignoram as estruturas de poder que limitam a expressão e os relacionamentos.

Enquanto você pensa em seu comentário, vou ali fazer um pouquinho de mel com as abelhas companheiras…

PS: Este post se inspira no trabalho que apresentei na Intercom deste ano, onde proponho e utilizo um método para o estudo das relações sociais na blogosfera.




Sessão de autógrafos

8 11 2007

Se você estiver em Porto Alegre nesta sexta, está convidado a participar da sessão de autógrafos de meu livro “Interação Mediada por Computador: comunicação, cibercultura, cognição” na Feira do Livro de Porto Alegre, às 19h30min.

Mais informações sobre o livro e arquivos multimídia sobre o tema podem ser acessados no site oficial do livro.

Convite para lançamento de meu livro

PS: na semana que vem o blog voltará ao seu ritmo normal.

PS2: hoje é meu aniverário!

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Gerador de poesias dadaístas

23 10 2007

Depois de publicar minha “Fantástica Coleção de Geradores de Texto“, lembrei que eu mesmo tinha produzido anos atrás alguns geradores de texto. O primeiro traz uma versão digital da receita de poesia dadaísta do Tristan Tzara, que produzi juntamente com Camila Gonzatto em 1999. Para visualizar o projeto, clique na imagem abaixo (você precisará instalar o plug-in Shockwave, que era popular na época. A instalação é muito rápida!).

Tela inicial do antimecanismo

Leia abaixo o texto que escrevi na época sobre este projeto experimental, que visava criticar a navegação determinística do que chamo de hipertextos potenciais:

A tela inicial do “Antimecanismo” apresenta um inusitado readymade. No dadaísmo, essas peças tinham o intuito de dessacralizar os conceitos de arte e artista, expondo objetos do dia-a-dia como esculturas. Os antimecanismos eram máquinas produzidas com o único objetivo de desconcertar e provocar o público. A combinação de um cabide comum de lavanderia com um vulgar mata-moscas (foto e escultura produzidas especialmente para este hipertexto) põe em conflito duas situações contraditórias do movimento: o dinâmico (o mata-moscas) e o estático (o cabide).

A escolha do título é uma brincadeira com este hipertexto que tem por trás um código fechado que potencializa o funcionamento correto do produto. Por outro lado, apesar da estrutura determinística do código, o conteúdo gerado não é nada fechado. Constitui-se então em um mecanismo que não serve para a produção de nenhum texto específico. Mesmo os links no interior de cada texto não levam para nenhum lugar que o leitor/autor planejasse, deixando-o em uma construção aleatória.

Alguém poderia argumentar que trata-se de um mecanismo para geração de textos inúteis. Um mecanismo de geração de textos que não serve para nada. Finalmente, poderia-se também dizer que o título está dentro da perspectiva dadaísta, no sentido de não ter um comprometimento em dizer qualquer coisa ou explicar a obra.

Uma das motivações que conduziu à produção deste hipertexto foi o fato de que os links apresentados em sites na Web são normalmente fruto de uma programação estreita que conduz sempre a um mesmo destino, tantas vezes o link ou botão forem clicados. Nesse sentido, e inspirado pelo anarquismo dadá, programou-se uma peça em que os links (com exceção de alguns poucos) despertam sempre resultados aleatórios e imprevisíveis. Portanto, trata-se de um hipertexto onde a relação entre cada palavra-âncora não está rigidamente determinada.

Entretanto, por trás de “Antimecanismo”, mais do que uma obra dadaísta informatizada e que permite a interação de pessoas navegando na Web, há a intenção de por em discussão a questão da seqüencialidade textual. Em muitas discussões emerge uma distinção entre texto impresso seqüencial e hipertexto informático não-sequencial. Será fiel essa dicotomia?

Tristan TzaraA poesia dadaísta, na radicalidade sugerida pela receita de Tzara, toma um texto impresso e estilhaça seu ordenamento. Cada palavra torna-se um fragmento dissociado das outras palavras que compunham a mesma página. Mas, para não dizer que este pequeno pedaço de papel rasgado já não tem nenhum traço de sequencialidade, poderia-se sugerir que no interior da palavra ainda existe uma seqüência de letras que constituem a palavra e seu reconhecimento (mesmo que falte alguma letra ou contenha algum erro de redação).

Ao serem colocadas todas as palavras recortadas em um saco, os fragmentos serão mais uma vez reaproximados, mas em um novo ordenamento e em diferentes planos. Ao ser agitado o saco, as proximidades e afastamentos entre cada pedaço do texto original serão alteradas randomicamente. Poderia, paradoxalmente, dizer-se que no interior do saco em agitação as palavras não teriam nenhuma ordem entre si, ou, pelo contrário, contra-argumentar-se que estariam compondo breves seqüencialidades que logo dão lugar a outras enquanto o saco é agitado.

Ao serem dispostas na tela, as palavras sorteadas serão posicionadas com alguma relação espacial entre elas. Como foram ordenadas aleatoriamente, o leitor pode ler cada uma na ordem e direção que desejar: de cima para baixo, em diagonal, etc. Porém, mesmo que faça a leitura de forma não-convencional ele não imprime uma certa seqüência em sua leitura? Logo, poderia se falar em não-linearidade ou seria melhor pensar em multi-seqüencialidade? Uma coisa é tratar de ausência de qualquer seqüência, outra é supor diversos ordenamentos possíveis.

Finalmente, por detrás do sorteio aleatório das palavras também existe uma programação fechada. Um dos momentos de maior trabalho na produção deste hipertexto localizou-se nessa fase. Queríamos potencializar o caráter não-previsível dessa poesia. Para tanto, foi necessário a redação de várias linhas de código fechado que assegurassem o sorteio dentro dos limites planejados.

Mesmo que as palavras pareçam estarem impressas sobre os pequenos papéis rasgados, tratam-se na verdade de elementos diferentes. Queríamos que em cada sorteio uma palavra não aparecesse sobre o mesmo papel. Assim, palavras e papéis são sorteados em separado e sobrepostos visualmente. Precisou-se também fazer uso do recurso de “listas” para se evitar que um mesmo papel ou palavra aparecessem duas vezes na interface (pois o sorteio informático comum não evita isso).

Portanto, mesmo por detrás de todo movimento do aleatório, existe uma programação em um sistema fechado, guiado por um planejamento prévio e determinístico que viabiliza certas ações e proíbe outras. Logo, com este hipertexto, pretendeu-se oferecer uma interface que pudesse servir para a discussão de questões como não-linearidade, imprevisibilidade, leitura e autoria, etc.




Entrevista sobre o livro “Interação Mediada por Computador”

30 08 2007

Livro O programa Livro Aberto, produzido pela PUCRS, está veiculando nesta semana uma entrevista sobre meu livro Interação Mediada por Computador: comunicação, cibercultura, cognição, recém lançado pela Editora Sulina.

Meu colega Juremir Machado da Silva, como sempre, fez perguntas excelentes sobre a vida online.

Veja abaixo a primeira parte da entrevista.

Você pode ver as partes dois e três diretamente no site do YouTube.