
Era uma vez uma formiguinha chamada Selma. Quando o tempo esquentava, ela trabalhava, trabalhava, trabalhava. Em fila com suas colegas, carregava pesadíssimas folhas para dentro do formigueiro. Essas eram as reservas que garantiriam a vida no inverno.
Enquanto isso, a cigarra, de nome Pedro, cantava no tronco de um eucalipto. Sua voz tão bela atraía o interesse de todas as cigarras moças. Mas de tanto cantar, deixou todo o trabalho de lado. Morreu seco, queimado pelo sol.
Moças definitivamente não chamavam a atenção de outro personagem de nossa história. Este filósofo francês cedo percebeu que gostava de rapazes. Depois de escutar por diversas vezes que tal comportamento não era “natural” e que Deus não havia criado o homem para esse tipo de coisa, decidiu estudar isso tudo na academia.
Selma nunca pensou em contestar nada. Desde que nasceu, sabia exatamente qual era o seu lugar na sociedade. Herdeira dos compromissos da casta, trabalhava, trabalhava, trabalhava. Apesar de tanta dedicação, suas parentes, da geração seguinte, nunca ouviram falar dela.
Pedro também se foi. Mas não fez falta. Tantos outros machos cantaram no eucalipto. E encataram as meninas cigarras da época. E quantas delas deram a luz a outros cantores magníficos…que também não faziam a mínima idéia de quem teria sido Pedro.
O filósofo homossexual nunca deu muita bola para o barulho das cigarras. O que lhe preocupava de fato era como sua forma de amar era interpretada de formas diferentes em épocas distintas. Ele queria compreender como uma prática social compartilhada pelos homens da Grécia antiga havia sido mais tarde registrada nos manuais de medicina como uma doença, um comportamento que rompia com o funcionamento “normal” do corpo e da sociedade.
Selma, pelo contrário, sempre respeitou a ordem das coisas. Nunca revoltou-se com o trabalho pesado, muito menos com a hierarquia no formigueiro. As jovens cigarras também eram muito respeitosas com Pedro. Reconheciam nele a autoridade e a força, própria de todo bom cantor.
Poder, para o filósofo homossexual, nunca foi algo herdado, nem uma concessão ao soberano. Trata-se de uma relação de forças, que repercurte não apenas na relação entre os corpos, mas no próprio saber.
Ei, mas o que essas histórias têm em comum? Humm…de fato nada! Mas tem gente que acha que é tudo a mesma coisa!
Update: não deixe de ler o post anterior para compreender o contexto desta “pseudo-fábula”.