Home / Redes sociais / Facebook / Como as empresas da Web 2.0 exploram seu trabalho gratuito

 
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Gratuitos? Você esta enganado

Muita gente sonha em trabalhar no Google. Você já deve ter visto diversas imagens dos corredores de sua sede na Califórnia com máquinas de refrigerante e potes de doces e a variedade de restaurantes dispostos ao redor do gramado da empresa…tudo gratuito. Além disso, os funcionários podem jogar vôlei e nadar no intervalo do trabalho. O que você não sabe é que você já trabalha para o Google e outras empresas da internet…e gratuitamente.

Neste capítulo de livro eu discuto como nosso trabalho gratuito na rede gera imensos lucros para empresas da Web 2.0. Apesar de gabarem-se de nos oferecer serviços online de grande qualidade sem cobrar mensalidade, isso não quer dizer que não pagamos nada. Como mostrei em meu último post, nossas interações amistosas são vigiadas pelo Facebook que posteriormente vende esses dados para anunciantes (saiba mais sobre industrialização da amizade). Mas isto é apenas a ponta do iceberg.

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ReCaptcha do Google

Sabia que quando você digita números ou palavras em um Captcha você está prestando um serviço para o Google? Você está traduzindo informações que serão usadas para a comercialização de eBooks e para o aperfeiçoamento dos serviços do Google Maps. Bem, você deve estar pensando: “se é para melhor os serviços que uso na rede, não me importo que usem meus dados!” A resposta parece fácil, mas é preciso tomar cuidado. Sua privacidade foi aos poucos sendo invadida e comercializada, sua navegação na rede é hoje monitorada constantemente. E mais, abrimos mão da posse do que publicamos na rede e nosso lazer é explorado como trabalho não-remunerado. Tudo isso é mascarado por slogans como “user-generated content” e sites “gratuitos”. Ou seja, trata-se de um novo sistema produtivo e de novas formas de trocas comerciais. Contudo, nem sempre fica claro de que forma pagamos pelos serviços online.

Quando o site colaborativo Huffington Post foi vendido em 2001 para a America Online por 315 milhões de dólares, um grupo de 9000 colaboradores entrou na justiça para reivindicar seu quinhão. Liderados pelo ativista em questões trabalhistas Jonathan Tasinia, o grupo exigia 105 milhões de dólares como reposição de perdas, entendendo que o alto valor pago pela AOL levava em conta o conteúdo redigido por eles gratuitamente. De acordo com essas acusações, Arianna Huffington mantinha um regime escravocrata no site que criara. Um ano depois, a corte de Nova Iorque recusou as alegações, afirmando que os colaboradores enviaram seus posts espontaneamente e tinham consciência de que não receberiam qualquer pagamento por eles.

Claro, nem todo trabalho gratuito na Internet pode ser rotulado de exploração. Veja-se por exemplo o desenvolvimento colaborativo do sistema operacional Linux. Produzido e atualizado por uma legião de voluntários, as melhorias retornam gratuitamente para toda a comunidade. O problema acontece quando não sabemos que nossa produção está sendo codificada como um produto para ser vendido para terceiros. É bem verdade que as empresas avisam nos seus Termos de Uso que poderão lucrar com nosso uso de seu sistema. Mas, sejamos sinceros, jamais lemos esses contratos e clicamos “aceitar” sem pensar muito.

No modelo “user-generated content“, os próprios consumidores produzem o conteúdo que eles mesmos consumirão. Prestam um trabalho gratuito sem mesmo perceber que suas interações, produções simbólicas, seus comportamentos e relacionamentos estão sendo vendidos como produtos. Ironicamente, diante de máquina publicitária tão bem arquitetada, os próprios consumidores podem pagar para anunciar algo (como um blog que mantém) para outros consumidores.

Seria esta a mais perfeita máquina capitalista já produzida? A inequívoca fábrica social que transforma o prazer em rentável trabalho gratuito?

Observando como as mídias sociais se aproveitam das interações que lá explicitamos, o professor e pesquisador Christian Fuchs dispara:

Usuários de mídias sociais comerciais nem controlam nem têm posse sobre seus próprios dados, sendo deles alienados. O trabalho que gera commodity de audiência é explorado porque gera valor e produtos que são possuídos por outros, o que se constitui ao mesmo tempo como um processo de alienação.

Não precisamos ser alarmistas, nem tampouco liderarmos um boicote contra todos os sites de redes sociais. De toda forma, é importante estarmos alertas e avaliarmos que informações compartilhamos online. Este tipo de debate é também necessário para compreendermos o estado da economia do virtual e suas contradições.

Havia um tempo em que temíamos a hegemonia da Rede Globo em nosso país e como ela controlava os meios de comunicação de massa. Esta pobre senhora, coitada, parece hoje um cãozinho vira-lata diante do poderio onipresente do Google e do Facebook, que vigiam toda a nossa vida online: nossos relacionamentos com amigos, familiares e colegas de trabalho; nossa busca por informações na rede; nossas conversas privadas; os textos e imagens que publicamos. É certo que esse rastreamento e uso de nossas interações não significa que contarão nossos segredos mais íntimos. Facebook e Google não tem interesse em fofoca! Querem apenas nos codificar em lucrativos grupos de consumo segmentados. Nossa existência, nossos desejos e traumas só lhes importa para nos transformar em alvos de empresas ávidas em nos vender algum tipo de produto.

Finalmente, vale ler o documento “Declaração de direitos em sites de rede social“, lançado recentemente pelo site Ello. Evidentemente, trata-se de uma estratégia desse concorrente do Facebook, que promete não publicar anúncios nem vigiar dados, para atrair maior público. De qualquer forma, o texto gera um bom debate sobre privacidade na rede.

 
 

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