O novo Apple Watch reinventa o relógio e as interfaces gráficas

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Três versões do Apple Watch

Você pode estar pensando que a Apple chegou atrasada desta vez. Várias outras marcas já lançaram seus smartwatches. A Apple, no entanto, levou mais tempo para anunciar seu primeiro produto digital wearable, pois decidiu reinventar a experiência com interfaces gráficas e sensíveis ao toque… de novo!

Seria muito fácil fazer uma interface miniaturada do iPhone para caber na pequena tela de um relógio. Isso seria o óbvio, mas a experiência e usabilidade não funcionariam. Você talvez lembre que a primeira tentativa da Microsoft em lançar uma interface para smartphones seguiu justamente essa ideia equivocada. O Windows Mobile não passava de uma versão reduzida da interface do Windows no desktop. Claro, era preciso usar uma canetinha stylus para clicar nos diminutos botões.

Quando a Apple lançou o iPhone em 2007 não havia absolutamente nada parecido em termos de interface. Botões grandes para serem selecionados sem canetinhas (que eram sempre perdidas), operações via multi-touch (como ampliar ou reduzir uma foto), etc, etc, etc.

Desta vez, mais uma vez (desculpe a redundância), a Apple parte de algumas perguntas básicas: quais são as especificidades deste novo produto? Que limitações o dispositivo impõe a seu uso? Que interações táteis se adequam com mais facilidade a tais contextos? Perguntas como essas contribuíram para a criação da inovadora interface do primeiro iPod. Naquela época não havia nenhum outro dispositivo de música cuja interação com o menu (apenas textual nas primeiras versões) era tão fácil e possível de ser controlado com apenas um dedo.

Quanto ao mercado de smartwatches, outras empresas chegaram antes. A Apple preferiu perder a primazia para desenvolver um produto bem acabado, fruto de planejamento adequado, que viesse a ser complementar com outros produtos da marca (principalmente o iPhone), de fácil manuseio e, claro, muito elegante.

Não, o novo Apple Watch não tem tela curva, nem design externo futurista. Mas acerta em repensar a interface gráfica. Vale lembrar que há alguns anos já haviampulseiras que transformavam o iPod Nano em um relógio de pulso. Porém, essa adaptação (ou melhor, “enjambrada”!) não levava em conta as diferenças ergonômicas exigidas por um dispositivo de vestir.

 

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Pulseira para iPod Nano

O que a equipe da Apple fez foi produzir uma interface específica para uso com o típico botão lateral de relógios analógicos (que serve tanto para fazer scroll, por exemplo, quanto para apertar e selecionar apps) e com tela sensível ao toque. Desta vez, a tela consegue diferenciar toques leves de pressões com mais força, despertando funções diferenciadas. O sensor de movimento do Apple Watch é excelente para aferir seu desempenho em corridas, incluindo detalhamentos se você subiu escadas.

Assim que se liga o relógio já se percebe que se está diante de uma interface diferenciada. A tela de início em nada lembra aquela do iPhone ou iPad. Através de uma combinação de toques na tela e uso do botão giratório lateral (chamado de digital crown) é possível visualizar o universo de apps, dar zoom em certa área de tela e selecionar-se o aplicativo desejado. Com o microfone incorporado, pode-se usar o sistema de reconhecimento de voz (não disponível ainda em português) para ditar textos, marcar compromissos, consultar informações, etc.

Bem, para ficar realmente claro o trabalho de criação de uma interface totalmente nova para um relógio digital, que funciona de forma complementar com o iPhone, você precisa assistir ao vídeo de apresentação narrado pelo guru do design Jony Ive. Depois deixe seu comentário, discutindo se a Apple realmente conseguiu criar uma nova experiência em dispositivos móveis.

Agora é só esperar até o início de 2015 para colocar suas mãos em um desses relógios!

Clique na imagem para assistir ao vídeo.

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Tensões entre a grande mídia e as utopias da cibercultura

jornalismo participativoDesde que se começou a falar sobre Web 2.0, quando os serviços online passaram a enfocar interfaces para produção colaborativa, os debates sobre tecnologias digitais ganharam um tom festivo. Era como se finalmente tivéssemos alcançado a terra prometida, a sonhada possibilidade de desbancarmos a grande mídia. Se antes se dizia que a liberdade de imprensa só existia para os donos de jornais, nesta nova era tecnológica todos passaram a ter voz. Através dos blogs, potencializados por fáceis sistemas de publicação e interação, qualquer um pode expor suas opiniões sobre política, produtos culturais, bens de consumo, etc. Com sites de redes sociais, somando-se a essa caixa de ferramentas digitais, quem precisaria recorrer aos velhos meios de comunicação? Ainda baseados no processo industrial de produção e circulação de informações, por que buscar notícias em jornais e emissoras de TV e rádio que apenas transmitem, mas não aceitam conversações? Para que ler relatos de segunda mão na imprensa, se quem melhor conhece o problema do buraco na esquina é o blogueiro que mora na vizinhança? E quem precisa visitar os portais, se links para notícias relevantes circulam sem parar no Twitter e no Facebook?

Estas e outras perguntas subsidiaram a defesa do que se chamou de jornalismo participativo. Diante daquele cenário pintado e dos relatos sobre dificuldades financeiras dos jornais impressos, a grande mídia poderia parecer estar dando seus derradeiros suspiros. Por outro lado, o fechamento de projetos emblemáticos como o OhMy News International (um jornal online global escrito colaborativamente), o encolhimento da blogosfera e o reerguimento do New York Times servem como balde de água fria sobre muitas utopias da cibercultura. Será a prova de que ao fim e ao cabo o grande capital sempre vence?

Fala-se muito hoje em Cultura da Convergência. Não apenas de convergência tecnológica, como a combinação de computador, agenda e celular nos smartphones. Mas também da aproximação entre produtores e consumidores de conteúdo. Veja-se, por exemplo, as criações de fãs de Harry Potter e Star Wars que continuamente publicam novas histórias de seus personagens favoritos (as chamadas fan fictions). Ainda que isso seja, a rigor, uma violação de direitos autorais, a indústria faz vista grossa, pois estes fãs contribuem para o sucesso de seus produtos. Já os sites de redes sociais, onipresentes em nossas vidas, não geram qualquer conteúdo. Lá buscamos informações que nós mesmos produzimos. Estes serviços podem parecer gratuitos, mas os pagamos com nossas próprias vidas! Ofereceremos toda sorte de dados, sobre nossas preferências e de nossos amigos e familiares. Em outras palavras, o consumo hoje mistura-se com a própria produção. Para alguns, tudo isso pode representar uma cooptação de trabalho gratuito. Para outros, a audiência produtiva é uma forma de resistência, à medida que já não se aceita mais a imposição de conteúdos fechados através de meios monológicos.

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Antes que se conclua que a indústria midiática tenha ganho o jogo, apropriando-se de práticas colaborativas, é preciso reconhecer que a tensão entre as forças continua. Veja-se por exemplo os vídeos do coletivo Mídia Ninja. A circulação de olhares alternativos sobre os embates entre polícia e manifestantes nos protestos recentes mostram que as utopias continuam fomentando os ideais de democratização do espaço midiático.

Certamente os estúdios, gravadoras, editoras e empresas jornalísticas de grande porte não desistirão de suas galinhas dos ovos de ouro, nem que precisem aceitar que seus clientes ajudem a pintar os ovos com novas cores! Mas os cidadãos não aceitam mais a imposição de qualquer conteúdo. Estão mais exigentes e procuram informações onde acharem mais conveniente. E, não raro, eles mesmos produzirão e circularão informações.

As visões de mundo passam a ser construídas a partir de um número cada vez maior de fontes e meios. E as pessoas querem compartilhar e discutir estas impressões. É justamente pelo confronto de tantas ideias diferentes que o próprio mundo pode ser reinventado.

Este texto foi publicado originalmente no Jornal Pioneiro, de Caxias do Sul, em 31 de agosto de 2013. Para uma maior discussão sobre as questões aqui expostas, você pode ler meu capítulo no livro “Interações em Rede”.

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Redes sociais, liberdade e capitalismo cognitivo

O que é capitalismo cognitivo e qual sua relação com crowdsourcing e crowdfunding? E como se atualiza o compromisso entre Comunicação e liberdade? Esses são temas que discuto em meu discurso como paraninfo de uma turma de Comunicação da UFRGS.

Leia aqui a íntegra deste discurso que proferi em julho de 2011.

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Euforismo n.5: sobre fotos de comida

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Euforismo n.4: Convertendo experiências em informação pura

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