Tensões entre a grande mídia e as utopias da cibercultura

jornalismo participativoDesde que se começou a falar sobre Web 2.0, quando os serviços online passaram a enfocar interfaces para produção colaborativa, os debates sobre tecnologias digitais ganharam um tom festivo. Era como se finalmente tivéssemos alcançado a terra prometida, a sonhada possibilidade de desbancarmos a grande mídia. Se antes se dizia que a liberdade de imprensa só existia para os donos de jornais, nesta nova era tecnológica todos passaram a ter voz. Através dos blogs, potencializados por fáceis sistemas de publicação e interação, qualquer um pode expor suas opiniões sobre política, produtos culturais, bens de consumo, etc. Com sites de redes sociais, somando-se a essa caixa de ferramentas digitais, quem precisaria recorrer aos velhos meios de comunicação? Ainda baseados no processo industrial de produção e circulação de informações, por que buscar notícias em jornais e emissoras de TV e rádio que apenas transmitem, mas não aceitam conversações? Para que ler relatos de segunda mão na imprensa, se quem melhor conhece o problema do buraco na esquina é o blogueiro que mora na vizinhança? E quem precisa visitar os portais, se links para notícias relevantes circulam sem parar no Twitter e no Facebook?

Estas e outras perguntas subsidiaram a defesa do que se chamou de jornalismo participativo. Diante daquele cenário pintado e dos relatos sobre dificuldades financeiras dos jornais impressos, a grande mídia poderia parecer estar dando seus derradeiros suspiros. Por outro lado, o fechamento de projetos emblemáticos como o OhMy News International (um jornal online global escrito colaborativamente), o encolhimento da blogosfera e o reerguimento do New York Times servem como balde de água fria sobre muitas utopias da cibercultura. Será a prova de que ao fim e ao cabo o grande capital sempre vence?

Fala-se muito hoje em Cultura da Convergência. Não apenas de convergência tecnológica, como a combinação de computador, agenda e celular nos smartphones. Mas também da aproximação entre produtores e consumidores de conteúdo. Veja-se, por exemplo, as criações de fãs de Harry Potter e Star Wars que continuamente publicam novas histórias de seus personagens favoritos (as chamadas fan fictions). Ainda que isso seja, a rigor, uma violação de direitos autorais, a indústria faz vista grossa, pois estes fãs contribuem para o sucesso de seus produtos. Já os sites de redes sociais, onipresentes em nossas vidas, não geram qualquer conteúdo. Lá buscamos informações que nós mesmos produzimos. Estes serviços podem parecer gratuitos, mas os pagamos com nossas próprias vidas! Ofereceremos toda sorte de dados, sobre nossas preferências e de nossos amigos e familiares. Em outras palavras, o consumo hoje mistura-se com a própria produção. Para alguns, tudo isso pode representar uma cooptação de trabalho gratuito. Para outros, a audiência produtiva é uma forma de resistência, à medida que já não se aceita mais a imposição de conteúdos fechados através de meios monológicos.

midia_ninja

Antes que se conclua que a indústria midiática tenha ganho o jogo, apropriando-se de práticas colaborativas, é preciso reconhecer que a tensão entre as forças continua. Veja-se por exemplo os vídeos do coletivo Mídia Ninja. A circulação de olhares alternativos sobre os embates entre polícia e manifestantes nos protestos recentes mostram que as utopias continuam fomentando os ideais de democratização do espaço midiático.

Certamente os estúdios, gravadoras, editoras e empresas jornalísticas de grande porte não desistirão de suas galinhas dos ovos de ouro, nem que precisem aceitar que seus clientes ajudem a pintar os ovos com novas cores! Mas os cidadãos não aceitam mais a imposição de qualquer conteúdo. Estão mais exigentes e procuram informações onde acharem mais conveniente. E, não raro, eles mesmos produzirão e circularão informações.

As visões de mundo passam a ser construídas a partir de um número cada vez maior de fontes e meios. E as pessoas querem compartilhar e discutir estas impressões. É justamente pelo confronto de tantas ideias diferentes que o próprio mundo pode ser reinventado.

Este texto foi publicado originalmente no Jornal Pioneiro, de Caxias do Sul, em 31 de agosto de 2013. Para uma maior discussão sobre as questões aqui expostas, você pode ler meu capítulo no livro “Interações em Rede”.

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