Jornalismo e Teoria Ator-Rede

robot journalism 2Quem produz jornalismo? A resposta mais rápida seria: “jornalistas, é claro”. Porém, existe uma gama muito maior de pessoas que participam do processo total. Para que o jornalismo ocorra outros profissionais são necessários: o entregador de jornais, o designer de infográficos, o cabo man, o cinegrafista, o motorista, etc. Ou seja, profissionais de outras áreas, mesmo que sem nenhuma formação universitária em jornalismo, são fundamentais para que o processo jornalístico possa acontecer. Mas, veja, existe jornalismo se matérias, reportagens e entrevistas não circularem? Evidentemente, sem o leitor, o ouvinte e o espectador o jornalismo não se completa. E mais, levando em conta os diferentes momentos em que o público pode participar (sugerindo pautas, enviando fotos e vídeos, etc.), compreende-se que o jornalismo só se materializa com a participação do público.

Apesar dessa argumentação, muitos ainda preferem insistir que jornalismo é apenas produzido por jornalistas. Essa defesa é evidentemente simplista. Parece ser fruto de um temor de perda de espaço profissional. Mas não quero aqui entrar nessa polêmica fácil. Prefiro questionar outro aspecto que tem gerado grande debate nas ciências sociais: como atores não humanos intervêm nos processos sociais? robot journalismTrazendo este questionamento para o contexto jornalístico, qual é o papel de atores não humanos no jornalismo? Refiro-me a objetos e tecnologias como o bloco de notas, o microfone, a câmera, o computador, o smartphone, etc. Existiria jornalismo sem eles? Logo, é preciso reconhecê-los como atores que participam das interações jornalísticas, intervindo significativamente (permitindo, transformando, inviabilizando, etc.) nas ações em curso.

Pois estas questões são todas amplamente discutidas neste artigo que escrevi com Gabriela Zago: “Who And What Do Journalism?: An actor-network perspective“. Este trabalho que aplica a Teoria Ator-Rede ao estudo do jornalismo foi publicado no prestigioso periódico Digital Journalism. Trata-se de uma revista científica com acesso pago. Mas até o final do mês de julho (2015) o acesso a todas as publicações da editora Taylor & Francis está aberto para brasileiros. Corra e aproveite para baixar nosso artigo e muitos outros que sejam de seu interesse de pesquisa!

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Autores de fanfiction deveriam ser remunerados

Uma legião de fãs de filmes e seriados não aceitam ser apenas espectadores. Tampouco ficam satisfeitos em discutir os últimos episódios em um grupo no Facebook ou em uma mesa de bar. Querem mais. E talvez não haja maior forma de envolvimento com os personagens que idolatram do que escrever suas próprias histórias. A partir de seus computadores pessoais, criam novas tramas para Harry Potter, redigem diferentes aventuras galáticas para os jedis e debatem com seus leitores os inusitados desdobramentos que publicam em sites de fanfiction.

keep-calm-and-write-fanfictionA rigor, esses autores de fanfiction são criminosos! Violam os direitos autorais e manipulam personagens e histórias criados originalmente por autores bestsellers e pelos grandes estúdios. Por outro lado, os detentores de tais copyrights, na maior parte das vezes, fazem vista grossa. Se quisessem, seria muito fácil fechar sites dedicados a fanfiction e penalizar exemplarmente um pequeno grupo de “infratores”. Por outro lado, reconhecem a importância daquelas manifestações espontâneas e como, ao final, podem ser lucrativas. Ora, autores de fanfiction acabam por manter o interesse por filmes, seriados e livros mesmo quando as empresas que os produziram não lançam nada novo nas telas e nas livrarias. Logo, autores de fanfiction acabam contribuindo por vendas continuadas de DVDs, camisetas, bonequinhos e todo tipo de quinquilharia.

Diante disso, a pesquisadora Abigail de Kosnik aponta que as fanfics são uma modalidade de trabalho gratuito que privilegia a indústria massiva. Por outro lado, os fãs não percebem seu esforço e o grande volume de horas que dedicam a essa produção como trabalho. A autora observa que os criadores de fanfics tampouco querem ter suas identidades reconhecidas. Em sua maioria, tais fãs se apresentam através de pseudônimos e fazem o possível para esconder suas informações pessoais. Mesmo assim, Kosnik defende que os fãs escritores deveriam obter alguma forma de retorno financeiro por seu trabalho – pelo menos como fazem bloqueiros e vlogueiros, através de sistemas como Adsense, do Google.

“A concretização da possibilidade de fãs serem pagos por seus trabalhos dependeria que tanto eles quanto as corporações não só reconhecessem o fandom como uma forma de trabalho a valorizar as mercadorias produzidas massivamente, como também ser digno de recompensa.”

– Kosnik, 2013

Se parece improvável que a grande indústria de produtos culturais venha a remunerar autores de fanfics, talvez surpreenda saber que os próprios fãs não querem receber nada em troca por sua paixão criativa. Conforme a autora, eles sentiriam-se como traidores da causa defendida, confundindo-se com os promotores oficiais que se vendem por comissões.

Para Henry Jenkins a natureza não comercial das fanfictions é determinante.

“Essas histórias são fruto do amor; elas operam numa economia de doação e são oferecidas gratuitamente a outros fãs que compartilham da mesma paixão pelos personagens.”

– Jenkins, 2009

A verdade é que mesmo que a grande indústria midiática e alguns autores reclamem que seus universos fictícios protegidos por copyright venham sendo violados, ao fim e ao cabo o que lhes importa é que as fanfictions acabam contribuindo para seus lucros. Do outro lado do espectro, os fãs escritores não sentem-se explorados por seu trabalho gratuito. Eis aí mais uma controvérsia da economia da Web 2.0.

Para saber mais sobre o SEU trabalho gratuito na internet, leia  meu último post ou este capítulo que publiquei recentemente.

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Como as empresas da Web 2.0 exploram seu trabalho gratuito

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Gratuitos? Você esta enganado

Muita gente sonha em trabalhar no Google. Você já deve ter visto diversas imagens dos corredores de sua sede na Califórnia com máquinas de refrigerante e potes de doces e a variedade de restaurantes dispostos ao redor do gramado da empresa…tudo gratuito. Além disso, os funcionários podem jogar vôlei e nadar no intervalo do trabalho. O que você não sabe é que você já trabalha para o Google e outras empresas da internet…e gratuitamente.

Neste capítulo de livro eu discuto como nosso trabalho gratuito na rede gera imensos lucros para empresas da Web 2.0. Apesar de gabarem-se de nos oferecer serviços online de grande qualidade sem cobrar mensalidade, isso não quer dizer que não pagamos nada. Como mostrei em meu último post, nossas interações amistosas são vigiadas pelo Facebook que posteriormente vende esses dados para anunciantes (saiba mais sobre industrialização da amizade). Mas isto é apenas a ponta do iceberg.

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ReCaptcha do Google

Sabia que quando você digita números ou palavras em um Captcha você está prestando um serviço para o Google? Você está traduzindo informações que serão usadas para a comercialização de eBooks e para o aperfeiçoamento dos serviços do Google Maps. Bem, você deve estar pensando: “se é para melhor os serviços que uso na rede, não me importo que usem meus dados!” A resposta parece fácil, mas é preciso tomar cuidado. Sua privacidade foi aos poucos sendo invadida e comercializada, sua navegação na rede é hoje monitorada constantemente. E mais, abrimos mão da posse do que publicamos na rede e nosso lazer é explorado como trabalho não-remunerado. Tudo isso é mascarado por slogans como “user-generated content” e sites “gratuitos”. Ou seja, trata-se de um novo sistema produtivo e de novas formas de trocas comerciais. Contudo, nem sempre fica claro de que forma pagamos pelos serviços online.

Quando o site colaborativo Huffington Post foi vendido em 2001 para a America Online por 315 milhões de dólares, um grupo de 9000 colaboradores entrou na justiça para reivindicar seu quinhão. Liderados pelo ativista em questões trabalhistas Jonathan Tasinia, o grupo exigia 105 milhões de dólares como reposição de perdas, entendendo que o alto valor pago pela AOL levava em conta o conteúdo redigido por eles gratuitamente. De acordo com essas acusações, Arianna Huffington mantinha um regime escravocrata no site que criara. Um ano depois, a corte de Nova Iorque recusou as alegações, afirmando que os colaboradores enviaram seus posts espontaneamente e tinham consciência de que não receberiam qualquer pagamento por eles.

Claro, nem todo trabalho gratuito na Internet pode ser rotulado de exploração. Veja-se por exemplo o desenvolvimento colaborativo do sistema operacional Linux. Produzido e atualizado por uma legião de voluntários, as melhorias retornam gratuitamente para toda a comunidade. O problema acontece quando não sabemos que nossa produção está sendo codificada como um produto para ser vendido para terceiros. É bem verdade que as empresas avisam nos seus Termos de Uso que poderão lucrar com nosso uso de seu sistema. Mas, sejamos sinceros, jamais lemos esses contratos e clicamos “aceitar” sem pensar muito.

No modelo “user-generated content“, os próprios consumidores produzem o conteúdo que eles mesmos consumirão. Prestam um trabalho gratuito sem mesmo perceber que suas interações, produções simbólicas, seus comportamentos e relacionamentos estão sendo vendidos como produtos. Ironicamente, diante de máquina publicitária tão bem arquitetada, os próprios consumidores podem pagar para anunciar algo (como um blog que mantém) para outros consumidores.

Seria esta a mais perfeita máquina capitalista já produzida? A inequívoca fábrica social que transforma o prazer em rentável trabalho gratuito?

Observando como as mídias sociais se aproveitam das interações que lá explicitamos, o professor e pesquisador Christian Fuchs dispara:

Usuários de mídias sociais comerciais nem controlam nem têm posse sobre seus próprios dados, sendo deles alienados. O trabalho que gera commodity de audiência é explorado porque gera valor e produtos que são possuídos por outros, o que se constitui ao mesmo tempo como um processo de alienação.

Não precisamos ser alarmistas, nem tampouco liderarmos um boicote contra todos os sites de redes sociais. De toda forma, é importante estarmos alertas e avaliarmos que informações compartilhamos online. Este tipo de debate é também necessário para compreendermos o estado da economia do virtual e suas contradições.

Havia um tempo em que temíamos a hegemonia da Rede Globo em nosso país e como ela controlava os meios de comunicação de massa. Esta pobre senhora, coitada, parece hoje um cãozinho vira-lata diante do poderio onipresente do Google e do Facebook, que vigiam toda a nossa vida online: nossos relacionamentos com amigos, familiares e colegas de trabalho; nossa busca por informações na rede; nossas conversas privadas; os textos e imagens que publicamos. É certo que esse rastreamento e uso de nossas interações não significa que contarão nossos segredos mais íntimos. Facebook e Google não tem interesse em fofoca! Querem apenas nos codificar em lucrativos grupos de consumo segmentados. Nossa existência, nossos desejos e traumas só lhes importa para nos transformar em alvos de empresas ávidas em nos vender algum tipo de produto.

Finalmente, vale ler o documento “Declaração de direitos em sites de rede social“, lançado recentemente pelo site Ello. Evidentemente, trata-se de uma estratégia desse concorrente do Facebook, que promete não publicar anúncios nem vigiar dados, para atrair maior público. De qualquer forma, o texto gera um bom debate sobre privacidade na rede.

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O Facebook e a industrialização da amizade

“Se você não está pagando pelo produto, você é o produto.” Este mantra hacker nos faz refletir sobre o que o Facebook faz com todos os dados que coleta de nossas interações. Apesar de alguns rumores que circulam de vez em quando, o Facebook jamais cobrará uma mensalidade. voce-e-o-produtoO lucro com publicidade e aluguel de sua base para empresas de monitoramento de redes sociais é tal que o Facebook não precisa de nossos trocados. Nós pagamos essa sofisticada plataforma de interações em rede com algo muito mais valioso: nossas próprias vidas. E com a vida de nossos amigos (já que falamos deles e os tagueamos em fotos)!

Rotineiramente nós oferecemos aos algoritmos do Facebook informações sobre o que sabemos, gostamos, queremos, lemos, ouvimos. Deliberadamente entregamos aos servidores de Mark Zuckerberg o que pensamos, com quem nos relacionamos, quem faz parte de nossa família e com quem concordamos. Através de nossas curtidas e de nossos compartilhamentos, é possível avaliar nossos padrões de gosto e de consumo. Ora, essas informações valem ouro para empresas e marcas que buscam anunciar seus produtos para públicos altamente segmentados.

Mark_RedeCada vez mais dependemos do Facebook para nos comunicarmos, mantermos nossas amizades vivas, nos informarmos sobre o mundo e sobre a vida de nossos pares e das celebridades. Mas não pense que o big brother de Zuckerberg está vigiando você apenas dentro das quatro paredes de seu site.  O Facebook coleta nossos dados em qualquer site ou loja online que utilize algum de seus serviços, como botões de curtir. Se você visita um blog ou site jornalístico e vê ali um box com fotos de seus amigos no Facebook ou o nome de um familiar que já curtiu aquela página, saiba que Mark está de olho em você. Sabe aquele produto que você desistiu de comprar em um site de e-commerce quando descobriu o valor do frete? Não se surpreenda se no outro dia você descobrir no Facebook que acaba de ganhar um desconto especial para finalizar aquela compra. Pois é, esse “generoso” Facebook está de olho! Ele sabe o que você fez no verão passado! Ele sabe do que você gosta. E ele entrega tudo isso para qualquer anunciante, agência de propaganda ou empresa de análise de tendências interessada em pagar por essas informações.

Sim, entrar no Facebook é abrir mão de grande parte de sua privacidade. Mas lembre-se que a maior parte desses dados coletados é você mesmo que oferta. E se você pensa que o melhor então seria usar o WhatsApp e o Instagram, não esqueça que eles também fazem parte da empresa Facebook. Agora, se você realmente pretende proteger sua privacidade, aqui vai uma fácil sugestão: termine sua conta em todos serviços da internet e vá morar em uma caverna desconhecida no Pico da Bandeira!

E se você quiser saber mais sobre tudo isso, o meu artigo sobre o que chamo de “industrialização da amizade”.

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Como fala uma organização? Um estudo sobre as manifestações da Fifa através de Jérôme Valcke

Os escândalos sobre pagamentos de propina a altos executivos da Fifa e seus parceiros tornaram-se pauta obrigatória na mídia. As finanças da Copa do Mundo no Brasil e em outros países estão sob suspeita. Na verdade, a Fifa ocupa insistentemente as manchetes da mídia brasileira há alguns anos. E quase sempre envolvida em situações polêmicas. Durante os meses que antecederam a Copa do Mundo, o secretário-geral Jérôme Valcke encarnava a Fifa na pressão pela conclusão das obras e na defesa dos interesses da organização. Neste artigo eu faço um estudo sobre a comunicação da Fifa através da perspectiva da Teoria Ator-Rede e analiso as manifestações de Jérôme Valcke na mídia.

Jerome-Valcke-Fifa-Secretary-General-World-CupA Fifa é mais do que um soma de funcionários e instituições associadas. Ela constitui-se COMO um ator social, mais precisamente um actante coletivo (nos termos da Teoria Ator-Rede). Diante dessa multiplicidade, como ela se comunica, como transforma o curso das ações? Esse é o foco de meu artigo “Como fala um actante coletivo? A organização Fifa encarnada por Jérôme Valcke“. No texto eu discuto o próprio conceito de “actante coletivo” e explico como de dá a constante reinvenção das organizações através de processos de conversação e textualização. Para tanto, também uso a Escola de Montreal de comunicação organizacional.

Se você estuda algum desses temas, gostaria muito de receber sua opinião sobre meu artigo :-)

 

Resumo:
Enquanto é crescente o volume de pesquisas sobre a agência de não humanos, o número de publicações sobre a agência de coletivos compostos por alto número de associações híbridas é muito inferior. É justamente essa problemática que este artigo pretende enfrentar. Mais especificamente, quer refletir sobre como agem as organizações. Como podem se fazer presentes, mesmo quando estão ausentes. Como suas ações deslocadas produzem diferenças. E como seus porta-vozes falam em seu nome e agem como sua própria “encarnação”. Após discussão sobre as contribuições da Teoria Ator-Rede e da Escola de Montreal para o estudo da ontologia das organizações, empreende-se uma análise da cobertura midiática das ações do secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, enquanto gerenciava a finalização das obras dos estádios que sediariam jogos da Copa do Mundo no Brasil.
PALAVRAS-CHAVE:
Teoria Ator-Rede, Escola de Montreal, organização, Teoria das Organizações, actante coletivo
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