Nova interface do Firefox 3 apresenta melhor usabilidade

13 05 2008

Estou testando há várias semanas a versão Beta 5 do Firefox 3. Apesar de estar gostando do vejo, principalmente a velocidade em abrir o programa e navegar na web, não quero aqui falar sobre todas as novidades desta futura versão, mas sim comentar a nova interface gráfica. Vale notar que como uso um Mac, não posso garantir que a interface seja exatamente a mesma em um PC.

Você deve usar o botão de voltar muitas vezes ao dia. E talvez pouco ou nunca use o botão de avançar. Nada mais justo que ampliar então o espaço em tela do botão de voltar, facilitando o seu uso. Ponto em usabilidade para o Firefox 3! Veja abaixo a comparação da barra de navegação das duas versões do navegador.

Barra de navegação de Firefox 2
Botão de voltar

“Favoritar” um site também ficou mais fácil. Basta clicar uma vez na estrela no canto esquerdo do campo de endereços. Ao se clicar duas vezes, uma janela aparece para que se escolha em que pasta se deseja salvar o favorito. Infelizmente, não se pode mais ajustar o tamanho dessa janela. Pelo menos nesta versão Beta.

Salvando como favoritoTamanho do painel no Firefox 2

No Firefox 2 era muito chato organizar os favoritos. Era preciso clicar em botões dispostos na barra superior da janela de organização de bookmarks, para abrir uma outra, para só então editar as propriedades. Finalmente os caras se deram conta que tudo isso poderia estar em uma mesma janela! Menos cliques = melhor usabilidade.

Antes

Renomear boomarks

Depois

Organizar bookmarks

Mudar bookmark de lugar

Outro avanço que fazia falta era a possibilidade de se organizar pastas de bookmarks a partir da própria barra de favoritos. Agora basta arrastar um favorito para a posição que você deseja.

Certamente até a versão final novos avanços ainda devem aparecer. De toda forma, já sabemos que além de mais bonita (o Firefox realmente tava parecendo velhinho), a interface gráfica teve sua usabilidade bastante aperfeiçoada.




Crescem os blogs privados

24 04 2008

Diário com cadeado Nos primeiros anos dos blogs, utilizou-se o diário íntimo como metáfora explicativa para esse novo fenômeno na Web. Essa comparação logo foi criticada, tendo em vista que diários são privados e blogs já nasceram públicos. Ou seja, a escrita de diários íntimos e blogs possuem objetivos distintos. Por outro lado, hoje observamos um crescimento de blogs privados, protegidos por senhas ou escondidos dentro de intranets organizacionais.

É muito difícil encontrar estatísticas sobre o número de blogs privados. Esta dificuldade é também relatada por Scoble e Israel no livro Naked Conversations. Esses autores, no entanto, entrevistaram Anil Dash, vice-presidente da Six Apart, que produz o blog/programa Movable Type. Segundo ela, em 2005 32% clientes da empresa já mantinham blogs privados. Esse número teria sido absurdamente ampliado nos últimos 2 anos. É interessante observar que o Blogger e o WordPress.com só incluíram o serviço de blogs privados em 2006. Ou seja, trata-se de fenômeno mais recente na Web, comparando com a o tempo de existência dos blogs.

Blogs privadosMas por que abrir um blog, para logo em seguida fechá-lo para o acesso público? Seria apenas um retorno potencializado da escrita de diários pessoais?

Eu confesso que tenho dificuldades em acreditar que hoje os blogs privados aproximam-se de quase metade da blogosfera, tendo em vista a quantidade gigantesca de blogs públicos. Na falta de estudos mais detalhados, tampouco sabemos quais os gêneros mais dominantes nesta blogosfera “obscura”. Mas o que sabemos é que o potencial da interface dos blogs vem sendo reconhecido pelas organizações como uma importante forma de comunicação interna. Equipes de trabalho podem utilizar os blogs para tornar o conhecimento tácito de uma empresa em conhecimento explítico. Esses blogs/texto servem também para a rápida atualização de novos membros no grupo, que rapidamente tomam ciência dos avanços e decisões no projeto.

Blogs privados também são utilizados em ambientes de educação a distância para o registro dos avanços dos educandos, para a condução de trabalhos em grupo e, claro, para a interação entre os participantes dos cursos. Grupos de pesquisa podem fazer uso privado de blogs para o desenvolvimento de projetos científicos e escrita de artigos. Enquanto o artigo não é finalizado, o grupo pode preferir manter em sigilo os dados coletados até então.

Blogs/programa podem servir de interface para a criação de textos literários, sem que se precise carregar o arquivo consigo durante viagens. É o que fez Alex Castro, do blog Liberal Libertário Libertino. Para escrever seu romance Empregadas & Escravos, ele abriu um blog privado onde acaba de terminar o primeiro episódio da história: Cães. O autor distribui convites para os interessados em ler e comentar o texto.

Outro uso interessante é desenvolver um blog apenas para amigos ou família. Dia desses, ouvi uma professora relatar que abriu um blog privado para interagir com seu marido enquanto permanecia fora do país.

É, os blogs continuam desafiando as definições e metáforas que tentam reduzi-los a este ou aquele gênero específico.




Twitter e a paranóia

11 04 2008

Sexta-feira, dia de blogagem “light”. É justamente esse espírito que inspira o retorno do cartum “Blog do Maicon”:

Blog do Maicon

Este cartum foi inspirado por este tweet do excelente autor de webjornalismo participativo Dan Gillmor.




Twitter e os afetos

8 04 2008

Twitter iove##GrEkK0o## pensou muito em como chegar na gatinha da turma ao lado. Navegando em seu blog, descobriu o user dela no Twitter. Logo pensou em escrever: “140 caracteres é muito pouco para dizer o quanto te adoro”. Mas achou meio piegas… ficar assim se declarando. Preferiu dar uma espiada na página dela no Twitter. Navegando em interações alheias, achou esta mensagem de uma tal de Natinha: “Querida, nada vai acabar com nosso amor”. Sem pensar muito, ##GrEkK0o## enviou um tweet privado : “140 caracteres não são suficientes para medir o buraco em meu coração”.




Cuidado com a TinyURL no Twitter

7 04 2008

O serviço TinyURL é hoje um dos serviços mais populares da Web. Como as mensagens no Twitter não podem exceder 140 caracteres, é inviável sugerir muitos links em virtude de sua grande extensão. O link deste post que você está lendo contém 65 caracteres. Ao visitar o site do TinyURL, consegui criar um atalho com apenas 25 caracteres: http://tinyurl.com/45tsak. A idéia deste serviço é tão boa que já vem sendo copiada por sites como micURL.

Exemplo de TinyURL

Como costumamos receber tantos links interessantes no formato TinyURL de pessoas que seguimos no Twitter, acabamos associando uma boa imagem a esse tipo de apontador. Por outro lado, os spammers e crackers já se deram conta disso. Como você já deve saber, uma das maneiras de coletar informações sigilosas dos internautas é enviar e-mails falsos com links que levam os desavisados a sites de “phishing”. Estas páginas se parecem com os sites reais, mas servem apenas para coletar users, senhas e outros dados pessoais. Pois tenho recebido o seguinte e-mail falso:

TinyURL escondendo um site de phishing

Observe que meu programa para leitura de e-mails revela o endereço associado ao link. Uma maneira fácil de identificar se o site-destino é falso é observar para onde a URL aponta. Como mostra a imagem, a TinyURL esconde o endereço original. Claro, o Ministério da Fazenda não utilizaria a TinyURL. Mas cuidado, não vá ser pego de surpresa.

Daqui a pouco vão aparecer TinyURLs maldosas também no Twitter. Não adianta dizer que você só assina Twitters de amigos e pessoas confiáveis. Em breve um deles vai cair em um site de phishing do próprio Twitter. Assim que ele informar user e senha, um robô começará a lhe enviar mensagens como se fossem de autoria de seu amigo. Você já deve ter visto esse filme no orkut, né?

PS: o site do TinyURL não oferece um mecanismo de denúncia de URLs “maldosas”.




“O Twitter vai terminar de matar o jornalismo”. Será?

3 04 2008

Twitter logoFoi mais ou menos isso que escutei no episódio 138 do podcast TWIT (This Week in Tech). Durante o programa, Steve Gillmor disse que o Twitter é hoje uma de suas principais fontes de informação (veja mais sobre diferentes usos do Twitter aqui). A partir disso, o debate prosseguiu sobre o possível fim do jornal impresso e até mesmo do jornalismo como o conhecemos hoje. Leo Laporte, âncora do podcast, citou um recente artigo da prestigiosa revista New Yorker sobre a vida e morte dos jornais americanos. O texto aponta que os jornais nos Estados Unidos vêm perdendo anunciantes, leitores e valor de mercado (o mesmo ocorre no Brasil). Para se ter uma idéia, as ações de importantes jornais caíram 42% nos últimos 3 anos. As ações da New York Times Company despencaram 54% desde 2004.

Este declínio vem sendo causado por novas tendências em circulação e propaganda, além, claro, da crescente força da internet. Eric Alterman, autor do texto na New Yorker, conclui que a internet está se transformando na principal fonte de notícias políticas para os leitores americanos. Isso já é realidade para os mais jovens e para aqueles com maior engajamento político, ele aponta. Por outro lado, a idade média de leitores de jornais americanos é de 55 anos.

Morte do jornalSe o jornal impresso de fato terminar, eu não sentirei saudades do papel pardo e poroso com imagens borradas e que sujam nossas mãos. Por outro lado, já confessei aqui que adoro ler o jornal de manhã na mesa do café ou lê-lo no fim-de-semana deitado na rede. Nestes momentos, o que menos quero é estar na frente de um notebook. Torço para que de fato o tão esperado papel digital seja logo desenvolvido, pois ainda gosto muito da interface das grandes páginas de jornais. Elas permitem uma visão panorâmica que os sites e monitores não podem oferecer. Gosto também de ir “escaneando” página por página, caderno por caderno, descobrindo notícias que eu não leria ou não perceberia na versão online de um jornal.

Esse processo que acabo de relatar possivelmente não ocorre em seu Twitter. Se você usa esse serviço, você deve “seguir” (que funciona como um processo de assinatura de informações) pessoas com gostos muito semelhantes aos seus. Encadeamento midiáticoSendo assim, você pode manter-se muito informado sobre assuntos cujo interesse é compartilhado naquele grupo de “twitteiros”. Essa leitura seletiva é ótima para uma ultra-especialização em determinados assuntos. Por outro lado, pode nos isolar de outros temas que, a princípio, não atrairiam nossa atenção.

Essa discussão não é nova. Ela apareceu junto com as primeiras reflexões sobre hipertexto digital e jornalismo online. As ferramentas de busca, o clique apenas em matérias de total interesse e a assinatura digital de informações (o RSS veio potencializar essa prática) acabariam nos afastando de outras notícias, causando assim um novo processo alienante.

Por outro lado, creio que o Twitter (assim como os blogs) é mais uma fonte de atualização em nosso “mix informacional”. Como os próprios debatedores do TWIT lembraram, esses dois meios citados abastecem-se de notícias da mídia tradicional. Creio que eles dão eco às matérias da mídia de massa e de nicho. E mais, os blogs permitem que elas sejam discutidas de forma dialógica, o que é bloqueado em jornais e tevês, por exemplo.

Como propus em meu último artigo, podemos hoje observar um “encadeamento midiático” entre os níveis de massa, de nicho e de micromídia. Se por um lado o Twitter e blogs (vistos aqui como micrimídia digital) potencializam a circulação de informações, as interações conversacionais nesses espaços virtuais têm também um importante papel político, na medida em que promovem uma reflexão sobre os temas difundidos na grande mídia, permitindo que as notícias não sejam apenas consumidas de forma a-crítica.

Mas o que seria dos blogs independentes e do próprio Twitter sem as estruturas jornalística institucionalizadas? Acredito que o jornalismo como um todo está se rearticulando. Está inclusive aprendendo com as práticas de webjornalismo participativo. Mas continuo acreditando que, para além de uma simples oposição entre isto e aquilo, precisamos adotar uma perspectiva sistêmica para analisar as atualizações do macro-sistema midiático em virtude das novas interações entre os sub-sistemas.

PS: Leia mais sobre a possível morte dos jornais nesta matéria do Guardian.




Ética na criação de mailing lists e vírus social

31 03 2008

SpamTendo em vista um incidente que ocorreu neste fim-de-semana na lista de discussão da Compós, quero aqui discutir alguns procedimentos éticos no desenvolvimento de mailing lists.

Neste domingo, um relações públicas envia uma mensagem para a lista (também traduzida para o inglês!) com a seguinte informação:

É um prazer contar com seu endereço eletrônico em meu cadastro para envio de informações sobre eventos culturais, entre outros.

Respeitando a política anti-spam, solicito que responda a este e-mail caso deseje ser removido deste mailing com a palavra REMOVER no campo assunto.

Logo em seguida, diversas mensagens aparecem na lista com o título “REMOVER”. Outros tantos e-mails são enviados em protesto à prática daquele RP. Mesmo que o autor da mensagem inicial tenha voltado à lista para pedir desculpas pelo “transtorno”, a enxurrada de mensagens ainda prossegue.

Há muito tempo se discute, principalmente na Europa, quais seriam as boas práticas para a criação e assinatura de newsletters. Existem dois procedimentos básicos para a sua criação (veja os sub-tipos aqui):

  • Opt-in: o internauta deliberadamente solicita a assinatura de uma newsletter. No caso do uso de um site para esse fim, a caixa para a seleção dessa opção deve vir desmarcada. Tal prática em sites que exigem algum tipo de cadastro garante ao internauta o direito de não assinar um serviço de forma desavisada;
  • Opt-out: os internautas são incluídos na lista de distribuição por uma empresa ou profissional interessado em divulgar suas informações. As pessoas que não tem interesse naquelas newsletters precisam entrar em contato para pedir a remoção de seus endereços eletrônicos. No que toca o preenchimento de cadastros em sites, o método opt-out já apresenta a caixa de assinatura marcada. O internauta precisa desmarcar essa opção se não deseja passar a receber a newsletter ou propagandas de “parceiros”.

Do ponto de vista de quem produz as newsletters, todas as pessoas que ele incluiu no mailing list devem ter interesse em suas informações. Por outro lado, ele dirá que as pessoas insatisfeitas com o serviço têm o direito de solicitar o cancelamento da assinatura. Mas, pergunto, quem lhe deu o direito de cadastrar os endereços eletrônicos de todas aquelas pessoas, para quem ele passa a “empurrar” todo o tipo de informações? Nesse sentido, mesmo que o produtor da newsletter possa insistir que têm uma política anti-spam, o envio não solicitado de uma newsletter, mesmo que apenas em uma oportunidade, já se configura como prática de spam.

V�rusAlém de não ter seguido os procedimentos éticos da criação de uma newsletter (mesmo que se diga que aquele RP tenha incluído o endereço da lista da Compós de maneira inadvertida), ele desencadeou um processo que muitos chamam de “vírus social”.

Todos sabemos que um vírus de computador é um pequeno programa que prejudica o desempenho da máquina. Por outro lado, a prática do envio de e-mails seqüenciais acaba causando um problema equivalente. Ter de apagar sucessivos repasses de correntes, rumores e pedidos demandam tempo e fazem uso desnecessário da conexão à Internet. Ou seja, o vírus social se refere a uma prática que onera a rede e não um software maligno.

É justamente isso que vem agora acontecendo na lista da Compós. O envio de pedidos de remoção do endereço de e-mail solicitado pelo e-mail do RP exige que todos os outros assinantes recebam a mesma mensagem. Ou seja, sua prática spammer não apenas incluiu o endereço da lista de discussão da Compós (utilizando o modelo opt-out) como gerou um efeito de “vírus social”.




As imposições da tecnologia na indústria moveleira

26 03 2008

A perspectiva mcluhaniana defende que as tecnologias nos servem como extensões. Sabemos do suporte que as interfaces digitais oferecem para as atividades cognitivas. A ciberarte e o design digital há muito nos mostram como a informática permite a ampliação do potencial criativo. Por outro lado, Arlindo Machado (2001, p. 41), um dos principais estudiosos da comunicação, faz também um alerta:

Desgraçadamente, porém, essas mesmas máquinas e programas se baseiam, em geral, no poder de repetição, e são os conceitos da formalização científica o que elas repetem até a exaustão. A repetição indiscriminada conduz inevitavelmente a estereotipia, ou seja, à homogeneidade e à previsibilidade dos resultados. criatividadeA multiplicação, à nossa volta, de modelos pré-fabricados, generalizados pelo software comercial, conduz a uma impressionante padronização das soluções, a uma uniformidade generalizada, quando não a uma absoluta impessoalidade, conforme se pode constatar em encontros internacionais tipo Siggraph, nos quais se tem a impressão de que tudo o que se exibe tenha sido feito pelo mesmo designer ou pela mesma empresa de comunicação.

De fato, é interessante observar como a facilidade de uso de muitos recursos dos programas de criação gráfica acabam por determinar uma estética padronizada. Quando o Photoshop incluiu o efeito de sombreamento (drop shadow), muitos textos e logotipos passaram a ter “sombrinha”. Hoje, grande parte das animações tem aquele jeitão do software Flash.

Quarto moduladoEm fevereiro, aproveitei o intervalo de almoço para visitar as principais lojas de móveis modulados para reformar nosso quarto. Observei que todas as empresas utilizam o mesmo software (ProMob) e trabalham com MDF (provavelmente do mesmo fornecedor). Fiz projetos em todas as empresas que visitei, pude constatar que até o design era similar. Tendo em vista o processo industrial e a produção em série de modulados, a própria critatividade fica comprometida.

Também comprei algumas revistas especializadas. Nas fotos de ambientes projetados por renomados arquitetos, encontrei as mesmas linhas retas, impostas pelo linha produtiva, os mesmos gavetões e as mesmas texturas falsas. Sumiram as curvas! De Florense a micro-empresas de modulados, quase tudo se resume a disposição de caixinhas. Mudam os puxadores e dobradiças, mas os ambientes acabarão todos se resumindo a cantos retos, ao encaixe de placas de MDF.

Se o seu quarto também é modulado, provavelmente é muito parecido com o meu!




Um pouco da história da escrita colaborativa

23 03 2008

Autoria Coletiva

Como tinha comentado quando começamos a escrever a memistóriaPerseguindo Nisus“, a escrita colaborativa de ficções não é nada nova. Nem tampouco se inicia no suporte digital.

No mercado editorial brasileiro, por exemplo, o livro “Pega pra Kapput”, publicado em 1978, foi escrito coletivamente pelos escritores Josué Guimarães, Moacyr Scliar, Luiz Fernando Verissimo e pelo desenhist Edgar Vasques. Segundo Guimarães, “Cada um escreveu um capítulo. O manuscrito era remetido, por pombo-correio, a um companheiro (companheiro! Imagina se fossem inimigos!) para que o continuasse”. Pega pra KapputAlém de textos, o livro coletivo trazia algumas páginas no formato de histórias em quadrinhos, desenhadas por Vasques. Não havia um roteiro prévio e cada colaborador tinha total liberdade em continuar a história.

Páginas do Pega pra Kapput

Em sua tese de doutorado sobre escrita hipertextual, Raquel Longhi cita diversos antecedentes da escrita colaborativa. Uma das raízes mais lembradas é o processo literário dos surrealistas chamado de “cadáver estranho”, através do qual uma poesia, por exemplo, é criada através da escrita de versos por participantes que só podiam ver o trecho imediatamente anterior ao seu. No meio digital, Raquel destaca o trabalho pioneiro de Roy Ascott: “La plissure du texte“, de 1983. Este projeto foi construído por 14 autores, durante 3 semanas, dia e noite. Já no contexto educacional, um marco importante no uso da tecnologia digital para a criação de histórias colaborativas é o projeto Dickens Web, coordenado pelo professor George Landow (autor do referencial livro “Hypertext”). No Brasil, o projeto “A Lady e o Arminho” foi criado pelos alunos de um dos primeiros cursos sobre hipertextualidade no país, ministrado online por Marcos Palacios.

Muitos estudos e experiências também foram realizados com o uso de ficções em hipertexto digital no doutorado em Informática na Educação da UFRGS. A professora Margarete Axt conduziu uma dessas primeiras experiências, na qual 8 colaboradores criaram a história coletiva “Era uma vez…”. Em um artigo que reflete sobre a experiência, Axt et al (2001) comentam:

A cada novo acesso que se faz à narrativa, a sensação que se tem é de encontro com uma outra história: parágrafos inteiros foram colocados entre os que já haviam sido escritos agenciando novas conexões e dispersões; personagens aparecem e morrem, enquanto outros parecem ter ficado distantes; tempos e lugares se modificam rapidamente; perguntas que interrogam, reticências que convocam, descrições que surpreendem, acontecimentos que decepcionam. Tudo conduz a uma sensação indescritível de desorganização. É como se a história tivesse seguido seus próprios rumos, como se os personagens houvessem modificado, por sua própria vontade, toda a trama enquanto os autores dormiam.

Jodo Autoria

Este brevíssimo histórico do processo de criação colaborativa de histórias não pode deixar de mencionar o jogo “Autoria: o jogo de criar histórias”, criado pela escritora Sonia Rodrigues (filha de Nelson Rodrigues). O jogo funciona como um guia de estrutura narrativa, através de cartas e um tabuleiro.

Minha primeira experiência com ficções colaborativas foi em meu antigo site Espiral Interativa, há cerca de 10 anos. Na seção “Obra em obras” eu propunha algo muito parecido com a memistória. Na época, 2 histórias começaram a ser escritas (mas nunca foram terminadas): Uma viagem cibernética e Lágrimas de Anjo.

E você, conhece outras experiências pioneiras e interessantes nessa área? Em um post anterior, Suzana Gutierrez comentou seu projeto educacional Wikistórias. Vale a pena conhecer!

Bem, pretendo continuar esse assunto em um post futuro.




Interney Blogs na Compós: micromídia digital e encadeamento midiático

19 03 2008

Logo da CompósJá estão no ar os trabalhos aprovados para o XVII Encontro da Compós. Trata-se de um dos eventos nacionais mais importantes na área da Comunicação. Neste ano estarei apresentando no GT Cibercultura e Comunicação o artigo “Interney Blogs como micromídia digital: Elementos para o estudo do encadeamento midiático”. O trabalho pode ser acessado aqui ou no próprio site da Compós (viste a biblioteca de cada GT para acessar todos os textos).

Durante o texto, busco mostrar que os conceitos de broadcasting e narrowcasting não são mais suficientes para o estudo da estrutura midiática contemporânea. Nesse sentido, utilizo a tipologia de Thornton (mídia de massa, mídia de nicho e micromídia) para o estudo dos blogs. Ao reconhecer a especificidade dos blogs independentes em relação a outras formas de micromídia, como fanzines e rádios livres, sugiro que aqueles fazem parte de uma sub-categoria: micromídia digital.

Logo do Interney BlogsPara o debate sobre quando blogs são mídia de nicho (ou mídia segmentada) ou micromídia digital, discuto as interações nesses espaços através do conceito de contrato de comunicação de Charaudeau. Mas, para essa argumentação não ficar muito abstrata (!), faço uma análise empírica sobre o condomínio de blogs mais conhecido do Brasil, o Interney Blogs.

Após questionar a simplista oposição entre blogs e mídia de massa (update: no sentido de que os primeiros nos salvariam definitivamente das corporações midiáticas. Claro, blogs nunca serão massivos!) e apontar o uso de blogs/programa por indústrias culturais (como o Bloglogs da Globo), eu proponho uma discussão sobre o que chamei de “encadeamento midiático”. Ou seja, a inter-relação entre os diferentes níveis midiáticos. Durante essa argumentação, busco demonstrar a intertextualidade existente entre os níveis massivo, de nicho e micromidiático. E, claro, relato como os blogs de micromídia digital analisam temas encontrados na mídia tradicional, e como eles também pautam notícias nos veículos de grandes corporações. Finalmente, aponto como a própria micromídia digital pode retroalimentar as indústrias culturais hegemônicas.

Espero poder explicar tudo isso melhor em futuros posts. Por enquanto, fica a dica de visitar as páginas dos GTs e conhecer o que será discutido no Encontro da Compós, que será realizado em São Paulo, entre 3 e 6 de junho.

Em tempo: aproveito para agradecer a participação dos blogueiros do Interney Blogs na pesquisa. Agradeço também a mestranda Sandra Bordini que me ajudou na análise da propaganda veiculada naqueles blogs.